Remixes e Loops

Maio 14, 2009

A remistura é muito mais do que estabelecer uma pista de ritmo para uma canção original, e como a remistura é um conceito relativamente novo na história da música não existem ainda regras estabelecidas para o seu processo. Actualmente os artistas conseguem-se expandir num novo nível de interacção. O som em si, técnicas de produção e a arte dos sintetizadores abrem um novo plano para a composição. Não podemos comparar o valor artístico de um bom uso de filtros à criação de uma nova variação na melodia mas os músicos possuem hoje uma inteira gama digital de possibilidades com que podem alterar a cor e a textura dos sons. Os remixers usam os meios de produção para alterar a melodia numa nova forma.

As raízes dos remixes são as dub’s. A palavra dub é actualmente utilizada por todo o mundo da dance music para descrever um remix, ou uma música carregada por um forte baixo, mas principalmente um remix. Foram os artistas reggae dos anos 60 que iniciaram o estilo dub, que nós conhecemos por remix, procurando inicialmente uma exclusividade e originalidade no som, mas posteriormente uma maneira de reutilizar ritmos de músicas previamente gravadas. A mistura de estilos resulta em novos estilos e foi assim que surgiu o remix.

Os músicos conhecem o que já foi feito anteriormente, o que lhes possibilita a criação de novas canções numa mistura de estilos disponíveis. Muitos consideram que a gama de possibilidades está a aumentar. Os Dj’s são aqueles que se encontram iluminados pelas possibilidades. Eles tocam as músicas de outros, acrescentando o seu toque, estilo e efeitos, e emocionam as pessoas, alcançando fama e riqueza no decorrer desse processo. O Dj’s estão no mesmo barco pós-moderno da dance music e dos remixes. O Remix é uma versão e é a interpretação de uma outra música, reconhecível como essa outra música mas marcadamente diferente, e é isso que faz o remix diferente da restante dance music. A dance music utiliza samples de variadíssimas fontes, mas de uma forma geral tenta esconder as suas fontes. Um remix, no entanto, presta homenagem à sua fonte original.

Claramente, as remisturas têm o poder de tornarem populares muitas músicas às quais prestam homenagem, o que é visto por muitos como de uma notável mais valia, e por outros mais puristas como algo reprovável. Na mesma medida em que uma boa remistura é uma interpretação pessoal de uma música existente, é também algo verdadeiramente novo. É necessário possuir grande habilidade, recursos técnicos e conhecimento musical para criar uma remistura de valor. Uma remistura com integridade artística consegue ter vida por si só, mas no entanto tem de suportar uma semelhança com a sua antecessora.

Para se remisturar, o equipamento é um requisito básico. Para a remistura é necessário um computador, um sequenciador, um sampler e alguma forma de teclado midi para despoletar a sua utilização. Os Macs são normalmente os preferidos em detrimento dos pc’s por razões como o sistema operativo, a memoria, o processamento e a estabilidade. Quanto ao sequenciador o Cubase é o mais utilizado entre os remixers de topo, mas existem outros programas disponíveis como o Pro Tools, o Logic e o Live. Nomeadamente entre os samplers temos hardware de várias marcas como os Akai, os Yamaha, os Emu e Roland, entre outros. Temos também a possibilidade de utilizar soft samplers que constituem um menor investimento, mas tem a desvantagem de ter tempos de loading mais prolongados. Para nós estudantes, um iBook com um audiocard sampler e alguns plug-ins são os requisitos necessários criar música, mas todo o remixer e músico tem as suas preferências quanto ao equipamento.
A maior parte das músicas que os remixers recebem são em A-DAT, um sistema digital multipista, em cassete, usado pelos estúdios e por produtores de uma forma geral. A vantagem do A-DAT é que se recebe a música completa, sem misturas e separada na sua estrutura. Isto possibilita pegar nas partes pretendidas sem qualquer processamento e aos níveis desejados. Também podemos receber os ficheiros em WAV (formato digital referente a PC) ou AIFF (formato preferido pelos Mac). Tendo os elementos em nossa posse, é altura de iniciar o remix. Não existe nenhum método concreto de remisturar. Isso apenas acontece se a criatividade estiver limitada pelos desejos impostos pelo cliente. Se não for esse o caso, é a altura certa para revelar todo o talento do remixer. Há quem inicie o processo através do isolamento das vocalizações originais e crie uma reviravolta harmónica na melodia. Em muitos casos esta é a forma em que os remixers pegam na música, de forma a permitir-lhes a criação de uma pista melódica completamente nova. Este é definitivamente um caso de definição de estilo próprio. Muitos remixes são conseguidos através do uso de samples da pista original, e somente da pista original. Neste caso, a manipulação dos sons e a criação de diferentes atmosferas sonoras são conseguidas através da aplicação de efeitos. Existem também casos em que o remix difere bastante da versão original o que permite dizer exactamente que não existem regras na remistura, mas conseguimos identificar uma aproximação comum entre temas, que é a tentativa de manter a essência do original na remistura. Todos os remixers começam de uma parte retirada da música original, quer seja de um segmento vocal, quer seja de um segmento instrumental ou de uma amostra de linha de baixo. A essência pode ser um refrão, uma melodia central ou um riff de guitarra. É algo que identificamos claramente com a música original. Muitos remixers procuram essa essência para centrar a sua remistura e para manter a integridade do original. Pode ser um segmento pequeno mas cuja importância se revele fulcral para a obra original e consequentemente para a remisturada. Em muitos remixes, a voz é simplificada dando lugar apenas a uma pequena frase. Quando a pista é remisturada, o remixer pode reestruturar completamente a voz, alterar o tempo e até mesmo modificar o seu tom, resultando num divórcio entre a voz e a música, deixando esses dois elementos de depender um do outro. Algumas músicas não têm sequer linhas vocais o que pode ser incrivelmente libertador, ou até mesmo restritivo, dependendo do método de trabalho e fonte de inspiração do remixer.

Para que um remix mantenha a sua ligação com o original é importante manter contacto com a banda durante o processo de remistura. É muito importante saber-se qual a orientação pretendida pelo artista, o caminho que deseja que a música siga, porque na verdade, estamos a lidar com algo que não nos pertence. Isto deve acontecer numa fase inicial da carreira, porque numa fase posterior em que o remixer é já um artista consagrado no mercado musical, é lhe dada uma maior liberdade por possuir já trabalho reconhecido. Isto não retira porém importância ao conhecimento das vontades do artista da música original., mas nesta fase, o remixer é assumidamente procurado pelo seu estilo e trabalhos anteriores. É também importante explorar a tecnologia disponível. É possível enviar email’s com versões e comentários para a banda ou mesmo até manter um blog sobre o progresso das remisturas. A menos que tenha sido dada completa liberdade criativa ao remixer, não existe nenhuma banda que não aprecie que lhes sejam pedidas opiniões sobre as suas obras remisturadas.

Uma valiosa ferramenta em qualquer área do som, mas especialmente na arte de remisturar é a habilidade para cortar e localizar as amostras de áudio de forma exacta. A representação visual na maior parte dos sequenciadores é mais do que adequada para o arranjo de sons numa procura de moldar as músicas originais. Muitos samplers oferecem também funções que possibilitam remisturar loops, sendo os loops atribuídos a determinadas secções e posteriormente seleccionados de forma aleatória. Esta possibilidade pode oferecer bons resultados mas a maior parte dos sequenciadores permitem um maior controlo das acções, longe do acaso, especialmente quando utilizado um programa como o ReCycle.

Embora muitos remixes necessitem da retenção da linha de voz original, algumas das melhores remisturas transformam a voz em sons que fogem completamente à aparência das versões originais através de variadíssimos efeitos. Os auto-tuners estão disponíveis tanto em hardware como em software e estão desenhados para providenciar uma solução para os cantores que não estão nos seus melhores dias. Podem ser uma grande ajuda para aperfeiçoar uma remistura. Os auto-tuners calculam os tons originais dos sons e usam mudanças de tom em tempo real para colar os sons à escala definida pelo utilizador. Os samplers modernos são poderosos, possuem variadíssimos efeitos e um elevado grau de potencial de manipulação. Obviamente a melhor maneira de perceber o potencial de um sampler é através da experimentação. A função Reverse é também bastante útil para transformar sons com ataques exactos e longas continuações em sons para a música de dança, mas é aconselhável um uso moderado e subtil. Discrepâncias no tom e no tempo são obstáculos comuns para qualquer remixer. Os gravadores digitais modernos oferecem algumas soluções para este problema, nomeadamente o time-stretching e o pitch-shifting. Através da combinação destas ferramentas, que são oferecidos pela maior parte dos sequenciadores, com um sampler moderno é possível controlar qualquer nível de tom e tempo. A maior parte dos sequenciadores também calcula o tempo exacto em bpm’s das músicas originais solucionando assim problemas que possam surgir. Algumas batidas genéricas cujos bpm’s são importantes saber são as seguintes:
Hip Hop/Trip-Hop – 80-120bpm
House – entre 120 bpm para trance, acelerando para 150 bpm para hard house
Garage 130-140 bpm
Drum and Bass – 160-170bpm
Jungle – de 170 bpm para cima
Electrónica – 50-230bpm
Ambiente – 0bpm-maximo
Breakbeat – 130-150bpm
Claro que estas indicações constituem apenas guias, mas como estamos no contexto da música electrónica não existem reais limites.

O Looping é essencial no trabalho das remisturas, e como a dance music é construída à volta de uma produção baseada em loops é importante a familiarização com esta técnica. Um loop é uma peça de material sonoro que se repete várias vezes. Num sequenciador, um loop repete uma frase musical. Num sampler, os loops são usados para permitir que uma porção de som finita no tempo seja sustentada indefinidamente. Uma vez importado o material sonoro para o sequenciador, a primeira coisa a fazer é localizar a região que queremos fazer o loop, e cortar à sua volta, dando alguns segundos extra à volta da secção pretendida, em ambos os lados. Para produzirmos um crossfade descendente é necessário criar um fade in linear desde o silêncio ao volume total perto do início da secção pretendida para criar o loop, e um fade out linear desde o volume total ao silêncio, na extremidade da secção. Aquando do corte do segmento, que será usado como loop, uma ajuda importante é também baixar o tom uma ou duas oitavas, o que permite encontrar mais facilmente o exacto ponto de início e final da secção para loop. Uma vez terminado o corte, é só voltar a recolocar o loop de volta no tom e tempo correcto.

Os efeitos são alguns dos mais utilizados mas menos entendidos recursos ao dispor do produtor. Se o remixer achar que falta algo ao seu actual projecto remix, alguns efeitos plug-in conseguem em muitos dos casos preencher essas lacunas. Como a remistura é muito sobre a alteração do original para algo diferente, os efeitos tem um papel bastante relevante neste processo porque fazem exactamente isso, pegam no som original e transformam-no. O reverb é definitivamente o efeito mais comum, e quase todas as unidades de som, samplers e sequenciadores possuem pelo menos um tipo de reverb. É uma importante ferramenta na criação de sentido de espaço.

A compressão foi inventada originalmente para solucionar os limites de frequências do vinil. A agulha começava a saltar com as vibrações das frequências mais baixas, e alguns técnicos de som desenvolveram a compressão para permitir aos álbuns terem frequências baixas sem que a agulha saltasse e riscasse o vinil. Desde os primeiros dias que a equalização se desenvolveu numa ferramenta essencial para os produtores, possibilitando o estabelecimento de limites sonoros. O Delay é basicamente eco e é bastante usado actualmente na gravação. O delay é o que atribui fluidez a qualquer estilo de dance music. Faz com que as batidas e as linhas de sintetizadores fluam, e é essencial para as dub.
Tal como qualquer produtor pode afirmar, a equalização tanto pode criar como destruir uma mistura. Tal como um pintor mistura inicialmente as cores para acentuar certas áreas de uma pintura, um produtor mistura as frequências altas, baixas e medias para atingir colorações subtis de tonalidades que uma boa mistura necessita. A equalização pode afectar dramaticamente o carácter de um som, mas se usado subtilmente pode também alterar a presença do som sem alterar a qualidade da tonalidade. Essa é a chave para a criação de misturas espacializadas a que estamos acostumados. Tal como nos efeitos, menos pode valer mais, portanto é sempre aconselhável cortar frequências do que intensificálas. Um high-pass filter permite que as altas frequências passem sem serem afectadas mas baixa a intensidade das frequências mais baixas em concordância com o seu valor relativo. Quanto mais baixas forem as frequências mais intenso é o corte. Um low-pass filter emprega os mesmos princípios mas de uma forma oposta – as altas frequências são cortadas, permitindo as mais baixas soarem intactas. A equalização por parâmetros permite a escolha ao utilizador sobre o alcance do corte ou intensificação das frequências, e é um tipo de equalização que é encontrado na maior parte dos sequenciadores. É extremamente flexível, e muitas frustrantes e recompensantes horas serão passadas a alterar os seus parâmetros. Ao analisarmos os níveis de frequências conseguimos detectar indesejáveis ressonâncias e reduzir os seus valores de ganho. Se for necessário enfatizar um instrumento é possível encontrar a frequência que realça o som, e de uma forma simples se intensifica o ganho.

Estilos musicais particulares requerem métodos particulares, mas algumas generalizações podem ser feitas. Normalmente, a forma mais segura é começar com a equalização de médio alcance para as vozes, no entanto adicionar intensidade às altas frequências pode criar uma sensação de espaço. Deve-se sempre alterar as opções da equalização se estivermos a trabalhar com mais do que uma pista de voz, e com as vozes de coro deve-se tentar utilizar apenas as frequências de médio alcance, porque permite um melhor destaque da voz principal. No geral, os sons de baixo são a parte mais complicada de acertar na mistura. Deve-se tentar sempre ouvir a mistura numa variedade de colunas diferentes, porque isso apontará as diferenças de tons de baixo produzidos pelos diferentes sistemas. O Baixo possui uma quantidade enorme de frequências que podem destruir uma mistura – o que soa bem numas boas colunas pode abafar uma mistura numas colunas mais baratas. A solução mais fácil para as frequências de baixo é usar a compressão para normalizar os muito baixos e muito altos alcances. O som de cordas solo precisa normalmente de ser enriquecido, e aumentar o ganho às médias frequências consegue normalmente atingir esses fins. Já as secções de cordas tendem a ocupar um enorme espectro de frequências. Nesse caso a melhor aposta é cortar frequências, mas o que é cortado e onde é cortado depende da música em que se está a trabalhar. A ressonância do bater das cordas é usada muitas vezes como um efeito na tecno e jungle. Assim, e como sempre, o melhor a fazer é experimentar.

O kick da bateria tende a ser o mais problemático som a equalizar na dance music. Tal como com os sons do baixo, deve-se ouvir a mistura em vários equipamentos. Na house music deve-se aumentar as frequências baixas, no drum n’ bass deve-se cortar as frequências baixas, e com o hip hop deve-se tocar consoante o que melhor convém a determinada canção, As tarolas normalmente respondem bem a um pequeno ganho nas frequências médias. Os tambores também beneficiam com um pequeno toque nas frequências de topo, o que ajuda na pronunciação do seu ataque e aumenta realismo ao som, mas também um aumento das suas baixas frequências aumenta a sua presença na mistura. A espacialização também é muito útil. Normalmente tenta-se espelhar uma bateria real para que cada parte da bateria ocupe o seu lugar no espectro estéreo.

Jason Swinscoe dá o seguinte conselho a quem pretende trabalhar em remixes: “Trata o remix como se fosse a tua própria musica. Não o faças por dinheiro. Concentra-te totalmente no trabalho e em todo o teu conhecimento até esse ponto e não tenhas receio de desperdiçar ideias interessantes. Apenas aceita um remix se estiveres mesmo com vontade de o fazer. Se não estiveres a faze-lo a 100% vais acabar por fazer um trabalho medíocre. O teu coração tem de estar em tudo o que fazes.”

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.